Da Tesoura ao Couro Cabeludo: Deyvyd Martins e a Construção de uma Carreira Guiada pela Ciência e Propósito
Entre a técnica apurada do salão de luxo, a mentoria em grandes marcas e a bagagem de vida que cruzou o Brasil, o profissional revela como a tricologia e a disciplina transformam o ofício do cabeleireiro.
Há quem veja a cadeira de um salão apenas como um espaço de transformação visual rápida. Para Deyvyd Martins, no entanto, ela é um consultório de saúde capilar, um palco de escuta atenta e o resultado de mais de duas décadas de entrega incansável ao ofício. Hoje à frente de atendimentos exclusivos no MG Hair, integrando o time de elite da Kérastase no Brasil como Care Coach Plus e com passagens formativas por templos como Vidal Sassoon, Deyvyd personifica a evolução do cabeleireiro contemporâneo: aquele que não abre mão da sensibilidade artística, mas ancora cada gesto em estudo rigoroso.
Num mercado frequentemente deslumbrado por atalhos digitais e resultados instantâneos, a história de Deyvyd lembra ao profissional de beleza o valor do tempo, do método e do respeito ao processo.

Confira a entrevista exclusiva:
Revista Cabelos: Deyvyd, sua caminhada na beleza começou bem cedo, no interior do Ceará. Como suas origens moldaram sua ética de trabalho e como foi para sua família, especialmente para sua mãe, ver você partir rumo a São Paulo?
Deyvyd Martins: Eu venho de Poranga, uma cidadezinha a mais de 360 quilômetros de Fortaleza. Meus pais sempre foram muito batalhadores; meu pai da roça e minha mãe, Dona Alaídes, tinha uma loja de roupas femininas onde comecei a ajudar desde cedo. A beleza entrou na minha vida através do meu tio e padrinho, o Evandro, que voltou de São Paulo e montou um salão na cidade. Aos 13 anos, num Dia das Mães de salão lotado, me ofereci para ajudar na escova e na chapinha. Foram três horas para terminar um cabelo, mas no final ele olhou para mim e disse: ‘Você nasceu para isso’. Pouco tempo depois, fui trabalhar com a Miriam, que veio de Brasília e me ensinou a base do corte, da cor e da química. Aos 16 anos, com o apoio da minha mãe, comprei o salão dela e assumi meu primeiro negócio. Só que eu sonhava maior e sabia que precisava vir para São Paulo.
Para a minha mãe foi um processo doloroso demais. Ela não queria de jeito nenhum que eu viesse, dizia que eu só sairia de lá por cima do cadáver dela, chorou muito na minha despedida e até enfrentou um período de depressão com a minha partida. Mas o amor de mãe é generoso: na véspera da viagem, mesmo com o coração apertado, foi ela quem me ajudou a arrumar as malas. Hoje, ela tem um orgulho imenso de tudo o que construí, vem me visitar em São Paulo praticamente todos os anos e até faz planos de vir morar de vez aqui comigo.
Chegar a uma metrópole como São Paulo costuma ser um choque de realidade para muitos profissionais. Como foi esse começo para você?
DM: Foi um choque total. Eu achei que já sabia fazer tudo e, quando peguei o primeiro cabelo em Osasco, percebi que não sabia nada. A demanda, o acabamento, o tipo de cabelo e a textura eram completamente diferentes do que eu fazia no Ceará. Eu ficava tão nervoso que a escova e o pente caíam da minha mão. Mas em vez de desanimar, entendi que precisava estudar. Toda segunda-feira, que era minha folga, eu ia fazer cursos livres em perfumarias e lojas de cosméticos por toda a cidade. Fiz workshops com o Rodrigo Cintra, acompanhei os passos do Marco Antônio de Biaggi e decidi entrar na faculdade de Estética e Cosmética. Foi aí que a minha carreira deu uma grande virada.
Assim que cheguei do Ceará, eu ficava tão nervoso durante os atendimentos que a escova e o pente caíam da minha mão.

Foi nessa fase acadêmica que a Tricologia e a Terapia Capilar entraram definitivamente na sua trajetória?
DM: Exatamente. Quando entrei na faculdade, achava que ia aprender sobre maquiagem e cabelo, mas me deparei com uma área profunda da saúde. Fiz duas pós-graduações em Tricologia e Terapia Capilar — uma na Anhembi Morumbi e outra na UNICSUL. Cheguei a dar aulas no ensino técnico e universitário por vários anos. Só que percebi que não fazia sentido ser um professor puramente teórico se eu não aplicasse essa ciência na prática viva do salão de beleza. A cliente real chega com químicas combinadas, corte químico e disfunções no couro cabeludo. Eu precisava unir o microscópio à bancada.
Hoje você faz parte do time Care Coach Plus da Kérastase e atende no MG Hair. Como essa visão científica se traduz no dia a dia com a cliente?
DM: A Kérastase conversou direto com a minha alma profissional porque é uma marca focada em diagnóstico e tratamento de alta performance. Hoje, temos 48 milhões de brasileiros com algum grau de queda capilar — fruto de pós-covid, dengue, estresse, alimentação ou fatores hormonais. O cabeleireiro moderno não pode se limitar a indicar um xampu qualquer de prateleira. É preciso entender se a causa é sistêmica e encaminhar a cliente para um médico dermatologista ou endocrinologista, enquanto nós cuidamos da recuperação da haste e do couro cabeludo no salão. Todo o meu atendimento tem como base a saúde:
“Se o couro cabeludo está saudável, o cabelo responde com beleza.”

Há também uma questão ética muito forte no seu posicionamento sobre essa especialização, certo?
DM: Totalmente. Se um colega de profissão encaminha uma cliente para eu tratar o couro cabeludo ou recuperar um dano químico severo, eu jamais vou mexer na cor ou no corte dessa cliente. Eu sou o tricologista dela, e o cabeleireiro dela continua sendo o meu colega. Nós precisamos perder o medo de indicar parceiros.
“A ética profissional é o que constrói a credibilidade do mercado e o respeito mútuo.”
Olhando para o cenário atual, o que mais te agrada e o que mais te incomoda no mercado da beleza?
DM: O que me agrada é ver que a busca por conhecimento técnico e por saúde capilar está crescendo; os profissionais estão percebendo que só fazer mechas bonitas sem entender o que o pó descolorante faz na fibra não sustenta uma carreira a longo prazo. O que me incomoda profundamente é a ostentação irreal promovida pelas redes sociais. Existe uma ilusão de que o sucesso acontece da noite para o dia. Já entrevistei assistentes que não sabiam lavar um cabelo direito e pediam salários exorbitantes para começar, iludidos por perfis da internet. O salão real é construído com rotina, disciplina e humildade para aprender a base antes de querer o topo.
E quem é o Deyvyd Martins quando as portas do salão se fecham? Como você cuida de si e recarrega as energias?
DM: Eu sou apaixonado por moda, viagens e psicanálise. Freud é uma das minhas grandes leituras. Se não fosse cabeleireiro, com certeza seria estilista. Adoro séries e produções sobre moda, mas também adoro uma boa comédia romântica para relaxar. Meu maior prazer é reunir amigos em casa, abrir um bom vinho e conversar sem pressa. E viajar é o que verdadeiramente alimenta a minha criatividade.

Tem algum destino de viagem que você considere o seu lugar no mundo?
DM: Londres me marcou muito profissionalmente, especialmente pela formação intensiva em corte que fiz na Vidal Sassoon, que abriu a minha cabeça para a geometria e ângulos do cabelo. Mas o meu apego afetivo mais forte é por Buenos Aires. Foi a minha primeira viagem internacional e a primeira vez que viajei sozinho. Costumamos dizer no Ceará que ‘enterramos o umbigo’ no lugar que a gente ama, e eu enterrei o meu lá. Recomendo sempre o livro O Amor Segundo Buenos Aires. Caminhar pelas ruas de lá, sentar num café e pedir uma taça de vinho é uma das coisas mais prazerosas da vida.

Quais são os nomes da beleza que continuam inspirando o seu olhar?
DM: No cenário internacional, o Hovig Etoyan, embaixador global da Kérastase em Paris, pelo gestual e atendimento de luxo impecável. No Brasil, temos gigantes: o Rafael Bertolucci, pelo conceito e visão artística fora da caixinha; o Washington Nunnes, pela criatividade genial; o Bruno DViana e o Lucas Possetti, pela técnica prática e real de salão com cabelos do dia a dia; o Rodrigo Cintra, pela humildade ímpar; e o Marco Antônio de Biaggi, por todo o legado histórico que elevou o status da nossa profissão e ensinou que toda cliente deve ser tratada como uma estrela.
“Admiro o Marco Antônio de Biaggi por todo o legado histórico que elevou o status da nossa profissão e ensinou que toda cliente deve ser tratada como uma estrela.”
Para encerrar: se pudesse voltar no tempo e dar um conselho ao Deyvyd que estava começando em Poranga, ou a quem está dando os primeiros passos hoje, o que diria?
DM: Eu diria: estude sem parar e nunca ache que já sabe tudo. Mesmo depois de mais de vinte anos de carreira, eu continuo sendo um eterno aluno. Trace metas muito claras de onde você quer chegar, vista a camisa do salão e da marca com que você trabalha, e entenda que não existem atalhos. O verdadeiro sucesso é aquele construído passo a passo, com consistência, respeito às pessoas e amor genuíno pela profissão.

