Entrevista do mês: Rafael Bertolluci

17/05/2019 | Monique Abrantes

Rafael Bertolucci foi o primeiro brasileiro a integrar o Le Collectif, o time artístico de cabeleireiros internacionais de L’Oréal Professionnel

Se fosse para seguir a influência familiar, Rafael Bertolucci teria seguido para a área industrial. Ele, que é do ABC  paulista, sempre viu o pai trabalhar em fábricas como engenheiro mecânico e o irmãos e primos estudando em escolas técnicas na área. Vendo que o filho tinha mais aptidão para a área criativa e de desenho, seu pai sugeriu o curso de cabeleireiro. “Pensava que meus amigos fossem me zoar. E ele disse que não tinha nada a ver. Fiz o curso e adorei! Comecei a ficar amigo de todo mundo na escola. As pessoas se aproximavam porque queriam cortar o cabelo, as meninas queriam fazer escova. Logo cedo eu descobri que eu tinha um certo poder nas mãos. Eu me senti empoderado e vi que tinha uma responsabilidade muito grande com isso.”

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Como você começou com o seu primeiro salão?

Essa história me marcou muito e gosto de dividi-la sempre que falo sobre isso. Há uns anos, eu e a Tati (Tatiane Ferreira Rodrigues Bertolucci, esposa de Rafael) andávamos pelas ruas procurando um imóvel para montar nosso salão. Mas ninguém sabia disso, só nós dois. Um dia, precisei ir à farmácia e um desconhecido me abordou. Ele usou o cumprimento que uso em minha igreja e eu retribuí. Então, ele perguntou se poderia me mostrar um presente que Deus tinha dado a ele. O homem me levou a um restaurante e começou a contar a historia daquele lugar. As horas passaram e eu precisava ir embora. Agradeci e, então, ele disse que tinha tido uma visão de que eu e minha esposa andávamos pelo bairro procurando um imóvel para alugar. Até pensei que ele estivesse me seguindo. O homem revelou que eu queria algo que muito pequeno perto do projeto de Deus. Ele disse que eu me tornaria uma referência em São José do Rio Preto e que, se eu fosse fiel, os níveis de bênçãos nunca sairiam de cima da minha cabeça. Comecei a chorar e entendi que Deus já estava preparando tudo. Abrimos o nosso primeiro salão, depois fomos para o segundo sem dinheiro nenhum e hoje estamos no terceiro, com mais de R$ 2 milhões investidos.

Como as redes sociais entraram na sua vida?

Uma cliente montou a minha conta no Instagram e eu nem sabia do que se tratava. Pensava que tinha sido uma coisa criada pelo Neymar (risos). Postei uma foto do cabelo dessa mesma cliente e começou a crescer muito. Não parei mais. Apesar de eu estar no interior de São Paulo, recebo pessoas de todo o pais. Acredito que as mídias sociais deram uma visibilidade muito grande. Consegui aumentar meu tíquete-médio, que está bem próximo ao de São Paulo, mesmo estando no interior.

As redes sociais impulsionaram a sua carreira.

Sim, mas no meio do caminho, comecei a me perder da minha missão. Passei a atender muitas clientes ao mesmo tempo. Acredito que o grande diferencial de um bom profissional não é atender todo mundo, mas é quão bem você atende quem te procura.  

Rafael Bertolucci na masterclass French Balayage & Gloss na programação dos 110 anos de L’Oréal Professionnel.

Você acha que muitos salões seguem por esse caminho?

Hoje em dia, muitos funcionam como linhas de produção. Marcam 15, 16 reflexos com um único profissional, os assistentes fazem o trabalho e o cabeleireiro só aparece para dar oi. Eu fiquei um pouco triste com isso, não era o que eu queria. Faz um tempo que resgatei o atendimento de cada cliente individualmente, do jeito que o meu pai me ensinou. Cada mulher é única e a felicidade tem que vir antes do dinheiro, dinheiro é consequência.

Como é a sua rotina atualmente?

Hoje, tenho um trabalho bem especifico. Atendo um número fechado de 12 clientes por dia. De manhã, faço cinco 5 reflexos e sete cortes. Dessa forma, consigo atender olhando no olho, conversar, entender. Participo muito da vida de muitas mulheres e elas da minha.

Recentemente, você estreou sua própria plataforma de ensino online, a Live Masters. Como você entrou na área da educação?

Fazia muitos vídeos para o meu canal no YouTube ensinando minhas técnicas. Recebi o feedback de profissionais de todo lugar, senti que tinha que alcançar mais pessoas, não só para vender algo, mas para aproveitar a oportunidade de estar com o meu salão, estar com uma marca como a L’Oréal Professionnel. Foi aí que planejei e lancei a Live Masters, que conta com outros artistas da marca também. Hoje, a plataforma é muito mais que um negócio, é onde conseguimos dar a outros profissionais aquilo que eles não teria acesso nem condição. Não chega a ser um projeto social, mas tem um propósito muito bonito. As pessoas queriam fazer o curso comigo, mas a logística disso tudo é cara. Se você tem um digital online de qualidade, é possível alcançar todo mundo. Com um preço acessível, nós conseguimos 2 mil assinaturas no primeiro mês.

Rafael e a cabeleireira russa Julia Dorofeeva no curso The Box, pela plataforma Live Masters Club

Você foi anunciado como o primeiro cabeleireiro brasileiro a fazer parte do Le Collectif, o time de artistas internacionais de L’Oréal Professionnel. Como foi?

Estar no Le Collectif não é uma conquista só minha, é uma conquista de todos os profissionais brasileiros. Felizmente, fui o felizardo e abençoado para estar lá neste momento. Comecei em L’Oréal como artista, virei embaixador e hoje sou membro do coletivo. É muito legal mostrar para o mundo e conhecer maneiras diferentes de trabalho. Recebi o retorno de várias pessoas de fora, que ficaram impressionadas com a maneira que a gente trabalha no Brasil: de forma mais rápida e eficiente. O brasileiro tem uma maneira muito mais prática e vibrante de trabalhar.

Texto: Monique Abrantes

Fotos: Divulgação