Mulheres que escreveram seus nomes na história da beleza

08/03/2019 | Monique Abrantes

Conheça algumas das milhões de mulheres que revolucionaram, e ainda revolucionam, o universo da beauté com seus talentos e competências

Beleza de décadas

Ela nasceu na França, mais precisamente em Paris, mas foi aqui que ela realizou sua vontade de deixar as pessoas mais bonitas. Até então, Janine, que levava o sobrenome Merlino, chegou em São Paulo nos anos 1950 e, nessa mesma época, conheceu aquele que se tornaria seu marido: Jacques Goossens. Ele, que veio ao Brasil em 1952 com o seu ofício de cabeleireiro, conquistou uma clientela fiel que, ao saber que seu contrato de trabalho havia terminado e deveria voltar à França, pediu sua permanência. Cinco anos depois, em um piquenique, os dois se conheceram e com três meses de namoro se casaram e abriram um dos negócios mais icônicos da beleza brasileira: o Jacques Janine, em São Paulo.

Além de compor o nome de um salão-referência, Janine Goossens também foi a precursora da profissão de esteticista por aqui. Naquela época, a cultura de cuidados com a pele era restrita apenas à limpeza com água e sabonete. Mas a parisiense, com toda a sua expertise, mudou esse conceito com protocolos estéticos e métodos franceses de aplicação de cremes faciais que conquistaram as mulheres da época pelos resultados e momentos de bem-estar que viviam. A união do casal gerou frutos: suas filhas Natalie e Diane que, anos depois, trouxeram os filhos Olivier e Chloé para o negócio. A excelência no atendimento ao longo dos anos fez com que a rede ganhasse um sistema de franquias no início dos anos 1980. Hoje, a marca Jacques Janine conta com unidades em sete Estados brasileiros mais a recém-inaugurada em Orlando, nos Estados Unidos.

Cachos e crespos de ouro

Heloísa Helena Belém de Assis Marinho, mais conhecida como Zica de Assis, começou a escrever sua história na beleza desde muito cedo. Aos 9 anos, a hoje empresária começou a trabalhar como babá e, mais tarde, se tornou faxineira. Dona de um cabelo black power, foi forçada a abrir mão da sua identidade, alisando os fios, a pedido de suas patroas. Foi então que começou a fazer suas próprias fórmulas relaxantes para tratar o cabelo, mas sem que ele perdesse sua originalidade. Entre testes positivos e negativos em seus próprios fios, os resultados começaram a surgir a partir dos anos 1990. Pessoas passaram a elogiar suas madeixas e a perguntar o que ela fazia, pois também queriam. O pontapé para a primeira unidade do Beleza Natural contou com a ajuda do marido, Jair Conde: em 1993, ele vendeu o único bem da família, o carro que usava para trabalhar como taxista, para investir no negócio e abrir no fundo do quintal da casa na zona norte do Rio de Janeiro. Daí em diante, crescimento foi a palavra que definiu o salão.

Em 1995, o Beleza Natural abriu as filiais em Jacarepaguá e em Duque de Caxias e, em 2004, é fundada a Cor Brasil Cosméticos, a fábrica responsável pelos produtos usados nos salões e comercializados para os cuidados dos cabelos crespos e cacheados a preços acessíveis. Neste mesmo ano, Zica também comemorou a abertura de mais quatro unidades, uma delas em Vitória. Em 2013, a marca lança a linha Bn.Cachos, com um estudo inédito realizado no mundo, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), que se tornou artigo científico no International Journal of Cosmetic Science. Nove anos depois, Zica entra para a lista das dez mulheres de negócio mais poderosas do Brasil, pela revista Forbes, e em 2017, o Beleza Natural começa a expansão internacional com a inauguração da primeira unidade em Nova York. Atualmente, o Instituto Beleza Natural está presente em Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo e emprega mais de 4 mil colaboradoras, que atendem, em média, 130 mil clientes por mês.

Empoderamento feminino

A história da cosmética no século 20 foi marcado pelo nome dela: Elizabeth Arden. Batizada Florence Nightingale Graham, a canadense formada em enfermagem teve como sua primeira inquietação a elaboração de cremes para queimaduras. Os testes à procura do creme perfeito, que contavam com gorduras, leites e outros ingredientes misturados e cozidos na cozinha da sua casa, começou a incomodar seus vizinhos por causa do mau cheiro. Porém, as reclamações a fizeram ir mais longe: aos 30 anos, foi para Nova York, onde conheceu um químico que a ajudou a elaborar a receita do creme perfeito. Logo ela se inseriu na cultura inquieta da cidade e conseguiu uma oportunidade em um salão de beleza, onde atuou como assistente da esteticista Eleanor Adair por dois anos até se tornar expert em massagem facial. Em 1910, Florence abre seu primeiro salão com a icônica porta vermelha na Quinta Avenida e muda seu nome para Elizabeth Arden.

Não demorou até que seu empreendedorismo chegasse aos ouvidos da alta sociedade da época e seu negócio ficasse conhecido como o melhor da cidade. Seu salão trouxe um novo protocolo de limpeza, tonificação e hidratação da pele antes da maquiagem, além das massagens relaxantes e rejuvenescedoras que conquistou adeptas em todo o mundo. Outro legado deixado por Elizabeth foi a democratização dos cosméticos com a criação de kits para spa em casa e a prática da maquiagem, com os passos do pó, o blush, conhecido então como rouge, e a pintura dos olhos. Além de revolucionar o mercado de beleza, a visionária também tinha o empoderamento feminino como uma das suas práticas: em 1912, Elizabeth desenvolveu um batom vermelho que simbolizava a sororidade e marchou ao lado de 15 mil mulheres reivindicando o direito ao voto feminino. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi a vez de criar o Montezuma Red para as mulheres das forças armadas norte-americana e combiná-lo com o vermelho de seus uniformes. Elizabeth faleceu aos 87 anos e deixou de herança fórmulas de cremes e loções aprimorados até hoje.

A arte da beleza

Nascida na Polônia, mais precisamente na Cracóvia, em 1871, Helena Rubinstein é conhecida como a mulher que inventou a beleza. Dona de um gênio sério e autoritário, Chaja, como foi batizada, era a mais velha das filhas e, como ditava a tradição judaica, ela deveria ser a primeira a se casar antes de suas irmãs mais novas. Porém, ela recusava todos os pretendentes e, aos 24 anos, foi enviada para a Austrália pela família, onde se hospedou na casa de um tio. Na mala, levou poucos itens pessoais, entre eles, um creme que sua mãe aplicava em seu rosto para protegê-lo do vento frio. Não demorou muito para sua pele sem manchas e cheia de viço chamar a atenção das australianas, que sofriam com os efeitos do sol. As encomendas enviadas pela mãe passam a não dar conta da demanda da clientela conquistada por Helena e logo ela consegue trabalho em uma farmácia, onde passou a desenvolver suas próprias misturas, batizada de Valaze. 1902 foi um ano marcante para Helena: além de as mulheres australianas ganharem direito ao voto, ela começa a produzir sua fórmula e a distribui-la em mercados e farmácias. Demorou apenas uns meses para ela abrir seu primeiro instituto de beleza, ampliar seu portfólio de produtos e dar o pontapé inicial à profissão de esteticista e demonstradora de cosméticos.

Madame, como gostava de ser chamada, expandiu seus negócios por toda a Oceania e, em 1908 e 1909, chegou a Londres e a Paris, respectivamente. Já naquela época, ela investia na influência de jornalistas e formadoras de opinião distribuindo seus cosméticos a elas. Em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial, Helena se muda para Nova York um ano depois com seu marido e seus filhos e inaugura seu primeiro instituto nos Estados Unidos. Daí nasce a conhecida rivalidade com Elizabeth Arden e até mesmo com Charles Revson, o fundador da Revlon. Seu legado conta com o desenvolvimento de uma linha e um salão exclusivo para homens entre as décadas de 1940 e 1950, além de ser a primeira a investir no conceito de spa e em cosméticos e programas de ginástica emagrecedora. Amante das artes, Helena faleceu em 1965 e as obras que não foram leiloadas após sua morte, passaram a fazer parte do acervo da Fundação Helena Rubinstein, instituição que funcionou em Nova York por quase 60 anos, distribuindo mais de US$ 130 milhões em bolsas de estudos para mulheres.

Luta e resistência

Sarah Breedlove, posteriormente conhecida como Madam C. J. Walker, tem uma história emblemática: primeira filha nascida livre, em 1867 nos Estados Unidos, de um casal de escravos, trabalhadores dos campos de algodão, enfrentou desde cedo as dificuldades da vida. Aos 7 anos, ela e a irmã mais velha perderam os pais. Aos 14, casou-se para fugir dos abusos e da crueldade de seu cunhado. Dois anos depois, ficou viúva e sozinha com a filha ainda bebê. Para reconstruir sua vida, Sarah se mudou para Saint Louis para trabalhar com os outros irmãos lavando cabeças em uma barbearia. O estresse sofrido por ela foi tão grande que uma doença no couro cabelo a fez perder a maior parte do cabelo. Foi então que conheceu os cosméticos desenvolvidos por Annie Malone, uma empresária negra do ramo da beleza. A partir disso, Sarah passou a ser agente de vendas da marca até conhecer seu marido, o jornalista Charles Joseph Walker.

Com ele, veio também a mudança do nome e a fundação do seu próprio negócio. O primeiro deles foi o Madame Walker’s Wonderful Hair Grower e Madam Walker’s Vegetable Shampoo, ambos com enxofre na fórmula para tratar o couro cabeludo e estimular o crescimento dos fios. As fórmulas, segundo ela, haviam sido reveladas durante um sonho e passaram a ocupar a lista dos primeiros cosméticos desenvolvidos para mulheres negras. A fim de promover seus negócios, Madam C. J. Walker passou a viajar pelos Estados Unidos por um ano e meio com seu marido, criando estratégias de marketing, venda direta e entrega postal com demonstrações de seus produtos. Em 1910, ela construiu sua fábrica no maior centro industrial do país, em Indianápolis, expandiu sua marca para países como Jamaica, Costa Rica, Cuba, Haiti e Panamá e inaugurou um salão de cabeleireiro, manicure e uma escola de treinamento para sua equipe de vendas, chamada de Hair Culturists. Além de empreendedora, Madam C. J. Walker também foi um símbolo de resistência ao racismo e ao assassinato de negros pelo país. Em 1917, quando uma multidão branca matou mais de 40 negros em Illinois, ela se juntou a um grupo de líderes que visitou a Casa Branca para apresentar uma petição defendendo a legislação federal contra o linchamento. Até hoje, quase cem anos após sua morte aos 52 anos, é lembrada como uma das primeiras empresárias negras dos Estados Unidos, por capacitar mulheres para atuar no mercado de beleza e luta pelos direitos civis.

Texto: Monique Abrantes

Fotos: Divulgação