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O olhar artístico de Ulisses Petri

Herdeiro da precisão artesanal da família, e três vezes vencedor do Prêmio Cabelos&Cia, o hair stylist revela por que a escuta atenta e o respeito ao ofício superam qualquer algoritmo.

Cada atendimento é uma forma de celebrar e viver.

Em meio à rotina acelerada dos grandes salões paulistanos, encontrar calma é artigo de luxo. Mas basta sentar na cadeira de Ulisses Petri para entender que o tempo ali corre em outro ritmo. Nascido em Santo Amaro da Imperatriz e criado em Florianópolis, o cabeleireiro traz na bagagem a herança de uma família de artesãos e costureiras, a paixão pelo rock clássico e um olhar cirúrgico para a beleza real. Três vezes premiado pelo Prêmio Cabelos&Cia — nas categorias Cabeleireiro, Colorista e Voto Popular —, Ulisses hoje brilha na equipe do ROM Concept, mas faz questão de manter os pés firmes no chão, priorizando a verdade em vez dos hypes passageiros.

Em uma conversa intimista regada a café, na Padoca no Maní, em São Paulo, ele abre o coração sobre suas origens, a vida a dois, o amor pelos animais e a filosofia de gestão humanizada que rege o seu trabalho.

Cabelos&Cia: Você cresceu cercado por habilidades manuais na família. Como essas origens influenciaram o artista que você é?

Ulisses Petri: Minha base vem toda dali. Eu era o caçula de sete irmãos, com pais bem mais velhos. Meu pai era empreiteiro; minha irmã mais velha, costureira sob medida, e o marido dela, marceneiro. Cresci vendo a precisão das roupas sem um ponto fora e a perfeição dos móveis sem emendas. Como eu não podia ter tudo o que desejava quando criança, desenhava para materializar meu mundo. Desenhava carros, paisagens, rostos. O manejo do pincel que aprendi na marcenaria foi o mesmo que levei para a colorimetria. O cabelo virou a minha folha em branco.

Como a beleza cruzou o seu caminho e quando você decidiu fazer as malas para São Paulo?

Ulisses: Eu não planejei ser cabeleireiro. Tinha por volta de 20 anos, morava em Floripa e conheci um rapaz em um Réveillon que me convidou para passar o aniversário dele em São Paulo. Esse relacionamento não vingou, mas em seguida me apaixonei por outro profissional, o Marco, que era educador técnico da Wella. Vim de mala e cuia para São Paulo por essa paixão. Ele me levou para assistir aos cursos no centro técnico. Foi ali que vi pela primeira vez um jovem de 19 anos cheio de talento chamado Romeu Felipe. Me encantei por aquele universo.

Você começou em salão de bairro antes de chegar aos grandes holofotes. Como foi essa construção?

Ulisses: Surgiu uma chance de ser auxiliar técnico na Wella, mas preferi ir para o chão de fábrica: fui trabalhar em um salão tradicional em Santana, o Cosmo. Varri chão, organizei estoque e me tornei o principal assistente dele. Com ele aprendi a linha de corte técnica. Fiquei anos sem tirar férias, trabalhando doze horas por dia e atendendo até 20 clientes. Mais tarde, a jornalista Mônica Salgado, que frequentava o salão, viu potencial em mim e me indicou para o Eron Araújo, no Blend. Ali ganhei visibilidade nacional, conquistei os três prêmios da Cabelos&Cia e construí minha clientela. Anos depois, reencontrei o Romeu e entrei no ROM Concept desde o primeiro dia.

Quem é o Ulisses quando as portas do salão se fecham?

Ulisses: Sou caseiro, diurno e muito eclético. Divido a vida há três anos com meu marido, o Ygor, que é bailarino, ator de teatro musical e personal trainer. Como ele é atleta, temos uma rotina bem regrada, acordando cedo. Também tenho três paixões de quatro patas: Frida, Gal e a Augusta, todos da raça Spitz. Em casa, adoro ouvir música: passei pelo rock clássico — Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd —, jazz, blues e MPB raiz, como Gal, Bethânia e Gil. Também amo viajar; a Itália me fascina, especialmente Cinque Terre e a Toscana. Costumo dizer que atender no salão e viajar têm o mesmo peso na minha vida: são formas de trocar as roupas da alma.

O mercado atual vive uma corrida desenfreada por visualizações nas redes sociais. Como você equilibra sua presença digital com a essência do ofício?

Ulisses: Eu brinco que durmo devendo e acordo devendo postagens. Reconheço a importância do digital, mas me recuso a ser refém disso. Há profissionais que viraram influenciadores e vendem imagem, e está tudo bem, cada um tem a sua narrativa. A minha é a da bancada, do olho no olho. Não adianta ter milhões de seguidores e só saber fazer um tipo de cabelo no salão. Minha autoridade foi erguida no boca a boca, na consistência técnica.

No salão, você lidera uma equipe de assistentes com muita serenidade. Qual o segredo para manter o time motivado sem cair na cobrança tóxica?

Ulisses: É o respeito e o jogo de cintura. Não trato assistente como subalterno. A hierarquia existe para organizar o fluxo do salão, não para diminuir ninguém. Ensino pelo exemplo, corrijo nas entrelinhas e dou espaço para eles pensarem. Minha meta é que eles não fiquem acomodados nem se tornem medíocres, mas também não alimento a vaidade desenfreada. Por isso, quem passa pela minha equipe não fica como assistente por muito tempo: todos se tornam profissionais autônomos e preparados.

Para você, o que realmente fideliza uma cliente na sua cadeira?

Ulisses: Segurança. Em cinco minutos de diagnóstico, quando sento, escuto e mostro a distância entre o desejo dela e o que a estrutura do fio realmente aguenta, ela percebe que há verdade ali. Eu não vendo ilusão, nem empurro produto que não acredito. Quando a cliente enxerga coerência entre o que você fala e o que você entrega, o elo de confiança se torna inquebrável.

 

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