Técnica não enche cadeira: por que o talento na tesoura já não é suficiente para lotar a agenda
Fazer um ótimo trabalho virou o mínimo. Quem lota a agenda não é necessariamente o melhor cabeleireiro, mas o que mais se faz notar.
Todo cabeleireiro conhece aquele profissional que dá o que pensar. Você olha para o trabalho dele, compara com o seu e percebe que faz um cabelo tão bom quanto — às vezes até melhor. Só que a agenda dele vive cheia, enquanto a sua tem vários buracos. Isso incomoda, e devia incomodar mesmo. Porque a explicação para isso não está na tesoura.

Técnica boa é fundamental, ninguém aqui está dizendo o contrário, mas ela parou de ser aquilo que diferencia um profissional do outro.
E o motivo é simples: o Brasil está cheio de gente excelente fazendo cabelo. Em toda cidade, em todo bairro, tem profissional entregando um trabalho impecável. Quando a excelência virou o normal, ela deixou de ser o seu diferencial e passou a ser só o mínimo que a cliente espera.
Aí vem a pergunta que ninguém gosta de ouvir: de que adianta ser o melhor da sua região se pouca gente sabe que você existe? Enquanto isso, tem profissional com metade do seu talento aparecendo o dobro — e colhendo um resultado muito melhor por causa disso.
É que o cliente não escolhe o melhor. Ele escolhe o melhor que ele conhece. E, hoje, quem ele conhece é quem está à vista. A vitrine do mundo mudou de lugar e agora mora na internet, no Instagram, na tela que a gente olha o dia inteiro. Aquela velha frase de que “quem não é visto não é lembrado” nunca fez tanto sentido. Fazer um trabalho bonito garante que a cliente que sentou na sua cadeira volte. Mas aparecer é o que traz gente nova para essa cadeira — e, sem gente nova chegando, o negócio simplesmente não cresce.
Para você ver que isso não é conversa de quem está começando, pense na Coca-Cola. É a bebida mais vendida do planeta há décadas, não tem concorrente que chegue perto e, mesmo assim, ela nunca some da sua frente. Patrocina Copa do Mundo, aparece em todo grande evento e investe bilhões de dólares todo ano só para continuar sendo vista.
Repare que são as duas coisas juntas: o produto entrega o que promete e, ainda por cima, está em todo lugar. Aparecer muito fazendo um trabalho ruim não constrói nada — só espalha mais rápido a fama que você não queria ter. Mas se até quem já domina o mercado global continua se mostrando o tempo todo, imagina quem ainda quer ser a primeira opção no próprio bairro?
Texto: Kevin Di Lucca, colunista revista Cabelos&Cia.
